A fotografia

Pescadinha & Zazá

Vestiram-me um vestido azul de veludo com gola branca, bordada com boli­nhas azuis, verme­lhas e amare­las. Em baixo, na saia, losan­gos de gorgo­rão nas mesmas cores da gola, enfei­ta­vam um circulo branco. Atrás das costas um laço azul compu­nha o vestido. Nos pés meias de renda e os meus sapa­tos verme­lhos. Pren­dendo os cabe­los loiros, um farfa­lhudo laçarote.

Quando entrei no eléc­trico para Lisboa, com a Zázá ao colo causei sensa­ção. Pare­cia saída de um postal ilustrado!

As pessoas inte­ra­giam comigo e eu muito orgu­lhosa mostrava-lhes as habi­li­da­des da Zázá.

Um senhor fez-me uma festa e disse-me: — Não sei qual é mais bonita, se a dona se a boneca.

Para a poste­ri­dade ficou a fotografia.

Permanente…Que maldade!!!

Por volta dos anos 50, nas revis­tas da época tipo “Século Ilus­trado”, as crian­ças eram mostra­das em foto­gra­fias de estú­dio, em poses ensai­a­das; irre­pre­en­si­vel­mente vesti­das e penteadas.

Crian­ças ranho­sas e desgre­nha­das “Jamai”.

Crian­ças pobres só eram mostra­das em conjunto, por exemplo:

A Exmª.  senhora do presi­dente da repu­blica, Gene­ral Craveiro Lopes, deslocou-se à aber­tura da Coló­nia Balnear Infan­til o Século.

Tinha pouco mais de dois anos, quando as tias me leva­ram à cabe­lei­reira, para me fazer uma permanente.

Disse­ram que me portei muito mal, e que chorei muito.

O Avô quando viu zangou-se, e proi­biu que o voltas­sem a fazer.

Aqui está o resultado.

A Ida à praia

Nos fins dos anos 20 a praia de Algés era muito concorrida.

Diver­sas barra­qui­nhas de madeira pinta­das de cores vivas, anima­vam a praia.

Alugavam-se ao dia, e serviam para prote­ger do sol e para as pessoas vesti­rem os seus fatos de banho.

Quem não tinha fato de banho, levava uma muda de roupa mais usada, e tomava banho vestida.

Os fatos de banho não podiam ter menos de quinze centí­me­tros acima do joelho.

Na foto: em baixo a tia Licas, à esquerda a minha mãe à direita a tia Xana e em cima a tia Adelina.

O homem que matou o “Vendaval”

As raja­das de vento uiva­vam por entre os mastros dos barcos. Os relâm­pa­gos e a chuva fusti­ga­vam tudo à sua volta, que o tempo era de vendaval.

À cinco dias que os barcos não saíam para a pesca. As lotas não tinham peixe e os homens desesperavam.

Apenas quatro homens compa­re­ce­ram ao chamado do meu avô.
 
– Qué do Chalica?
– Não veio, diz que não vai para o mar com este tempo, tem filhos para criar.
– Vai buscar o Américo, vamos sair mesmo assim. De madru­gada isto levanta.

A viagem foi terri­vel, tocada a chuva e vento, e onde a fúria das vagas a cada inves­tida, pare­ciam quebrar a quilha da pequena embarcação.

Chega­dos a Sesim­bra, não havia condi­ções para a pesca, por isso funde­a­ram na praia.

Ás três da manhã a tempes­tade amai­nou.
 
– Acor­dem!!! cambada de calões; — Toca a traba­lhar. Vamos pescar para o largo.

Esta­vam lá na hora certa, na hora em que um descon­traído cardume de cara­paus,  resol­veu explo­rar as redes do “Marce­lina da Costa”.

Foram os únicos na lota,  e o peixe valeu cinco vezes mais.

Viva o Mestre Zé, o homem que matou o vendaval.

A preta dos amendoins.

Quem estava sentado nas espla­na­das de Algés, sabia logo que ela tinha chegado.
As crian­ças em bando, corriam para ela e grita­vam a plenos pulmões:
–Preta da Guiné lava a cara com café!!!
–Preta da Guiné lava a cara com café!!!
Ela gostava da recep­ção;
–Baixava-se, falava com elas, fazia-lhes festas e dava a cada criança um gordo amen­doim.
Mendim-torradimmmm.… Olhá-mendim-torradimmmm:
–Pssst, quanto custa?
–Cada copo cinco estões. Bem aviado.
Era impo­nente, muito alta, forte, dentes muito bran­cos e vestes a fazer lembrar as suas longín­quas origens.Na cabeça um turbante compu­nha a figura.
Era a “Preta dos amendoins”.

A Mulher e a Sardinha quer-se pequenina.

O meu avô avali­ava as mulhe­res como se de peixe se tratasse.

Eu era a Pesca­di­nha; uma mulher feia e mete­diça era uma ” Uge” (raia gigante com ferrão na ponta do rabo); uma mulher muito bem feita, era “Pescada do Alto”; Uma mulher com boca grande era “uma boca de Char­roco” e com olhos gran­des era uma “Boga”. Havia ainda “a Cava­lona” que era uma mulher atiradiça.

Mas a perso­ni­fi­ca­ção da mulher perfeita era a sardi­nha, que se queria peque­nina e saltitante.

Maria Isabel era uma rapa­ri­gui­nha loira, com olhos cor do mar em dia de sol. Baixi­nha e muito reme­xida, era a filha mais nova do Senhor Costa.
Foi amor à primeira vista, ela pare­cia uma sardi­nhita prateada.

- Queres casar comigo Maria?

Casou com ela, e deixou-a grávida, a viver na casa da mãe.

Chegado a Lisboa, arren­dou uma casa na rua das Hortas, no número dezoito, em Pedrou­ços, perto da doca com vista para a Torre de Belém.

Foi nessa casa Que nasceu Susana, a primeira filha do casal. A tia “Xana”.

O “Salto”

Foi daqui do sítio de Alvôr, no Algarve, que o meu avô partiu para Lisboa.

Em Alvôr deixou a mãe e a pobreza.

Não se passava fome, por que quem vive com o mar a beijar-lhe os pés tem sempre algo para comer. Mas na altura Alvôr era uma terra sem futuro. Havia o mar e a pobreza, muita pobreza.

Tinha treze anos, quando veio para Lisboa num barco de pesca. Só voltou aos dezoito anos para rever a mãe, que encon­trou muito debi­li­tada. Com o dinheiro amea­lhado comprou-lhe a casa onde vivia e deixou dinheiro na venda do Senhor Costa para que nada lhe faltasse.

Algés

Pavilhões de Algés

Algés era em 1950 um sítio muito agra­dá­vel para se viver.

Muito perto, haviam indús­trias como a fábrica da pólvora de Barca­rena, os cabos Ávila, a fábrica de Lusa­lite, que davam emprego às pessoas da terra. Na baixa de Algés, exis­tiam três pavi­lhões espla­na­das, que esta­vam sempre cheios, o Cris­tal, que tinha uns gela­dos fantás­ti­cos, o Pavi­lhão Verde e o Riba­mar que ainda existe.

O Pavi­lhão Verde, era o da elei­ção da minha avó que tinha mesa reser­vada, todos os sába­dos e domin­gos. Ao vivo actu­ava uma Jazz-Band, onde um voca­lista com voz român­tica chamado Figuei­redo, encan­tava as damas da época.

A praça de touros onde tantas vezes torci para que os tourei­ros levas­sem umas valen­tes corna­das, o Sport Algés e Dafundo onde aprendi a nadar, o comboio, o eléc­trico e uma estrada margi­nal, eram alguns dos encan­tos da minha querida Algés.

Avó vou brincar às escondidas

Avó vou brin­car às escon­di­das com o tio “Pico” para a cave.

- Oh filha! — ainda agora a Maria Zé te vestiu de lavado.

A cave está suja e cheira mal. Além disso vais maçar o Mário, ele está a pôr as etique­tas no vinho. Foi o avô quem lhe pediu.

Vó… eu porto-me bem. — Bom vai lá, mas faz o que o Mário disser.

O “Pico” ficou todo contente quando eu apareci. Pegou-me ao colo e deitou-me em cima de um monte alto de redes da pesca e disse para eu ficar quie­ti­nha. Levan­tou o meu vestido até ao pescoço, e disse que eu tinha que olhar sempre para cima, porque se eu olha-se para baixo perdia o jogo.

O tio “Pico” não sabia jogar às escondidas.

Feliz dia da Mãe

Deolinda de Jesus (maquete caseira com Francis) by António Variações on Grooveshark

Ala… Arriba!

A “ISABEL LOURENÇO”, era uma trai­neira da pesca da sardi­nha, cavala e cara­pau. Tinha pouco mais de doze metros.

As trai­nei­ras pescam em cerco, isto é; cercam o peixe que depois de entrar na rede já não pode sair.

As zonas onde pesca­vam eram: — Setú­bal, Ericeira, Peni­che, Cabo Espi­chel, etc.

O “PAI E FILHOS”, era o barco de apoio, chamado de “envi­ada”. Mais pequeno, também pescava, mas a função prin­ci­pal era reco­lher o peixe que já não cabia na traineira.

Agora exis­tem guin­chos, rada­res e alado­res que apoiam os pesca­do­res. Naquele tempo, não havia desses apoios, e era ao som do canta­dor, que à força de braços os homens da envi­ada e da trai­neira içavam para o convés as redes carre­ga­das de peixe.

- Ala… Ala… Ala… Arri­ba­aaa!!!
– Ala… Ala… Ala… Arribaaaa!!!

Mãos cale­ja­das que mais pare­cem cabe­dal, lábios greta­dos, pele quei­mada pelo sol, reco­lhem o peixe para os porões e rumam a todo o gás para a lota; com a paixão pelo mar gravada a fogo na alma.

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