A Ida à praia

 

Nos fins dos anos 20 a praia de Algés era muito concorrida.

Diversas barraquinhas de madeira pintadas de cores vivas, animavam a praia.

Alugavam-se ao dia, e serviam para proteger do sol e para as pessoas vestirem os seus fatos de banho.

Quem não tinha fato de banho, levava uma muda de roupa mais usada, e tomava banho vestida.

Os fatos de banho não podiam ter menos de quinze centímetros acima do joelho.

Na foto: em baixo a tia Licas, à esquerda a minha mãe à direita a tia Xana e em cima a tia Adelina.

O homem que matou o “Vendaval”

As rajadas de vento uivavam por entre os mastros dos barcos. Os relâmpagos e a chuva fustigavam tudo à sua volta, que o tempo era de vendaval.

À cinco dias que os barcos não saíam para a pesca. As lotas não tinham peixe e os homens desesperavam.

Apenas quatro homens compareceram ao chamado do meu avô.
 
– Qué do Chalica?
– Não veio, diz que não vai para o mar com este tempo, tem filhos para criar.
– Vai buscar o Américo, vamos sair mesmo assim. De madrugada isto levanta.

A viagem foi terrivel, tocada a chuva e vento, e onde a fúria das vagas a cada investida, pareciam quebrar a quilha da pequena embarcação.

Chegados a Sesimbra, não havia condições para a pesca, por isso fundearam na praia.

Ás três da manhã a tempestade amainou.
 
– Acordem!!! cambada de calões; – Toca a trabalhar. Vamos pescar para o largo.

Estavam lá na hora certa, na hora em que um descontraído cardume de carapaus,  resolveu explorar as redes do “Marcelina da Costa”.

Foram os únicos na lota,  e o peixe valeu cinco vezes mais.

Viva o Mestre Zé, o homem que matou o vendaval.

A preta dos amendoins.

Quem estava sentado nas esplanadas de Algés, sabia logo que ela tinha chegado.

As crianças em bando, corriam para ela e gritavam a plenos pulmões:

-Preta da Guiné lava a cara com café!!!
-Preta da Guiné lava a cara com café!!!

Ela gostava da recepção;

-Baixava-se, falava com elas, fazia-lhes festas e dava a cada criança um gordo amendoim.

Mendim-torradimmmm…. Olhá-mendim-torradimmmm:

-Pssst, quanto custa?
-Cada copo cinco estões. Bem aviado.

Era imponente, muito alta, forte, dentes muito brancos e vestes a fazer lembrar as suas longínquas origens.Na cabeça um turbante compunha a figura.
Era a “Preta dos amendoins”.

A Mulher e a Sardinha quer-se pequenina.

O meu avô avaliava as mulheres como se de peixe se tratasse.

Eu era a Pescadinha; uma mulher feia e metediça era uma ” Uge” (raia gigante com ferrão na ponta do rabo); uma mulher muito bem feita, era “Pescada do Alto”; Uma mulher com boca grande era “uma boca de Charroco” e com olhos grandes era uma “Boga”. Havia ainda “a Cavalona” que era uma mulher atiradiça.

Mas a personificação da mulher perfeita era a sardinha, que se queria pequenina e saltitante.

Maria Isabel era uma rapariguinha loira, com olhos cor do mar em dia de sol. Baixinha e muito remexida, era a filha mais nova do Senhor Costa.
Foi amor à primeira vista, ela parecia uma sardinhita prateada.

– Queres casar comigo Maria?

Casou com ela, e deixou-a grávida, a viver na casa da mãe.

Chegado a Lisboa, arrendou uma casa na rua das Hortas, no número dezoito, em Pedrouços, perto da doca com vista para a Torre de Belém.

Foi nessa casa Que nasceu Susana, a primeira filha do casal. A tia “Xana”.

O “Salto”

Foi daqui do sítio de Alvôr, no Algarve, que o meu avô partiu para Lisboa.

Em Alvôr deixou a mãe e a pobreza.

Não se passava fome, por que quem vive com o mar a beijar-lhe os pés tem sempre algo para comer. Mas na altura Alvôr era uma terra sem futuro. Havia o mar e a pobreza, muita pobreza.

Tinha treze anos, quando veio para Lisboa num barco de pesca. Só voltou aos dezoito anos para rever a mãe, que encontrou muito debilitada. Com o dinheiro amealhado comprou-lhe a casa onde vivia e deixou dinheiro na venda do Senhor Costa para que nada lhe faltasse.

Algés

Pavilhões de Algés

Algés era em 1950 um sítio muito agradável para se viver.

Muito perto, haviam indústrias como a fábrica da pólvora de Barcarena, os cabos Ávila, a fábrica de Lusalite, que davam emprego às pessoas da terra. Na baixa de Algés, existiam três pavilhões esplanadas, que estavam sempre cheios, o Cristal, que tinha uns gelados fantásticos, o Pavilhão Verde e o Ribamar que ainda existe.

O Pavilhão Verde, era o da eleição da minha avó que tinha mesa reservada, todos os sábados e domingos. Ao vivo actuava uma Jazz-Band, onde um vocalista com voz romântica chamado Figueiredo, encantava as damas da época.

A praça de touros onde tantas vezes torci para que os toureiros levassem umas valentes cornadas, o Sport Algés e Dafundo onde aprendi a nadar, o comboio, o eléctrico e uma estrada marginal, eram alguns dos encantos da minha querida Algés.

Avó vou brincar às escondidas

Avó vou brincar às escondidas com o tio “Pico” para a cave.

– Oh filha! – ainda agora a Maria Zé te vestiu de lavado.

A cave está suja e cheira mal. Além disso vais maçar o Mário, ele está a pôr as etiquetas no vinho. Foi o avô quem lhe pediu.

Vó… eu porto-me bem. – Bom vai lá, mas faz o que o Mário disser.

O “Pico” ficou todo contente quando eu apareci. Pegou-me ao colo e deitou-me em cima de um monte alto de redes da pesca e disse para eu ficar quietinha. Levantou o meu vestido até ao pescoço, e disse que eu tinha que olhar sempre para cima, porque se eu olha-se para baixo perdia o jogo.

O tio “Pico” não sabia jogar às escondidas.

Feliz dia da Mãe

Deolinda de Jesus (maquete caseira com Francis) by António Variações on Grooveshark

Ala… Arriba!

A “ISABEL LOURENÇO”, era uma traineira da pesca da sardinha, cavala e carapau. Tinha pouco mais de doze metros.

As traineiras pescam em cerco, isto é; cercam o peixe que depois de entrar na rede já não pode sair.

As zonas onde pescavam eram: – Setúbal, Ericeira, Peniche, Cabo Espichel, etc.

O “PAI E FILHOS”, era o barco de apoio, chamado de “enviada”. Mais pequeno, também pescava, mas a função principal era recolher o peixe que já não cabia na traineira.

Agora existem guinchos, radares e aladores que apoiam os pescadores. Naquele tempo, não havia desses apoios, e era ao som do cantador, que à força de braços os homens da enviada e da traineira içavam para o convés as redes carregadas de peixe.

– Ala… Ala… Ala… Arribaaaa!!!
– Ala… Ala… Ala… Arribaaaa!!!

Mãos calejadas que mais parecem cabedal, lábios gretados, pele queimada pelo sol, recolhem o peixe para os porões e rumam a todo o gás para a lota; com a paixão pelo mar gravada a fogo na alma.

Heróis em casca de noz.

O “ISABEL LOURENÇO” e o “PAI E FILHOS”, foram dois dos barcos de pesca do meu avô. Era com eles que todos os dias, fizesse chuva ou sol, partia para o mar.

Ao meu avô chamavam-lhe “MESTRE ZÉ” e governava o “ISABEL LOURENÇO”. Os camaradas de faina eram; – o Ti-Zé, o Cága-Libras, o Américo e o Tá-Bem.

No “PAI E FILHOS”, o mestre era o ti Álvaro, e os camaradas eram; – o Mato Rico, o Cebola, o Jádisse e o meu pai que era o Zé-Ganso.

Estes homens do mar eram heróis em casca de noz. Os barcos eram relativamente pequenos, nove, dez metros e o mar nem sempre estava de bom humor.