Algarve terra de encantos

Era em Olhão, vila branquinha, com suas ruas sinuosas, lembrando labirintos e as suas casas em forma de cubos, tendo por telhados açoteias e mirantes, que nós passávamos alguns dias em casa de familiares.

À noite na açoteia, olhando o céu estrelado o Avô explicou-me como aquela estrela que brilhava mais que todas, era importante para os pescadores e que se chamava Estrela Polar, ou do Norte.

Ao redor os familiares juntaram-se a nós, trazendo figos secos com amêndoas e nozes, bolinhos de amêndoas e alfarroba e o medronho da Serra de Monchique que o meu avô tanto apreciava. À vez iam contando lendas, histórias e costumes Algarvios.

Quase todas as lendas falavam de mouras encantadas dentro de poços, onde à meia noite se ouviam os seus lamentos, à espera que alguém corajoso lhes quebrasse o encanto.

As lendas dos lobisomens e de almas penadas também me arrepiavam.

E as pragas malévolas que as mulheres antigas rogavam a quem as contrariava… eram assim:

Não sabia dar-te já uma dor tão grande que nunca mais passasse, que quanto mais corresses mais te doesse e, se parasses rebentasses.

ou então:

Permita Deus que fiques tão magro… tão magro… tão magro… que passes por o fundo de uma agulha de braços abertos.

ou ainda:

Permita Deus que tenhas uma febre tão grande… tão grande que até te derreta a fivela do cinto.

Com toda esta riqueza verbal,  eu adormecia embalada pelo reino da fantasia.

De manhã apanhávamos o barco para um dia bem passado na bela praia da ilha de Armona.

Depois da praia, lambuzava-me com um gelado de três bolas no jardim de Olhão.

Tudo isto faz parte de um universo mágico que relembro com muita saudade.

E deixo-vos com este brejeiro baile mandado, com as môças e môces marafades do meu Algarve.

À esquerda roda o bailo
Uma velha com um chocalho
Á esquerda roda a coxa
Carrapatos na xoxa

A esquerda roda o bailo
À direita o corridinho
Toda a moça que é bonita
Também dá o seu peidinho

 

Igreja de Alvôr ” A promessa “

Cruz com a imagem de Jesus Cristo
Como sabem, o meu avô era natural de Alvôr, ver ( ” O Salto ” 09/Mai/2o12 ).

Quando chegávamos ao Algarve, ficávamos em Portimão, que era um porto de pesca com lota, mas tirávamos sempre um ou dois dias para irmos até Alvôr.

Numa dessas viagens, devia eu ter sete anos, o meu avô pediu-me que o acompanha-se até à Igreja de Alvôr.

Qual não foi o meu espanto, quando ele me convidou a ajudá-lo a encher de velas acesas o altar do Senhor Jesus de Alvôr.

O espanto era legítimo uma vez que o meu avô era um homem ateu.

Minha avó ao contrário, era extremamente religiosa e ele tentava constantemente contrariar os conhecimentos  que ela me tentava transmitir.

Posto isto perguntei-lhe:

Então o Avô que está constantemente a gozar com a Avó quando ela me ensina algo sobre religião, vem ao altar do Senhor Jesus, enche-o de velas, e quer que eu o ajude a acende-las?

Não o compreendo!!!

Está bem… ajuda-me a acender as velas que eu já te conto a história.

 

 

 

 

A Máquina do Tempo

Todos os anos por volta de Julho e até ao fim de Agosto, o barco  “Pai e Filhos”, ia pescar para o Algarve. Uma semana depois seguíamos nós, isto é… o Avô, a Avó e eu. Viajávamos de comboio, que saía da estação do Barreiro.

Na altura 1950 mais ou menos, fazer aquela viagem era para mim  algo sobrenatural. Eu tinha medo, medo e curiosidade, daquela máquina assombrosa, que chegava a resfolegar, silvando, cheirando a ferro em brasa, e que exigia ser constantemente alimentada. Dois seres afadigavam-se nessa missão. Vestiam camisolas cavadas, enegrecidas  como eles,  pela fuligem e pelo fumo.

Quando o chefe da estação apitava, o mostro respondia com um enorme silvo. Eu sentia-me dentro de uma máquina do tempo, que se deslocava devagarinho e começava a falar cada vez mais depressa, conforme ganhava velocidade… Pouca-Terra … Pouca -Terra.. Poucaterra..poucaterrra.

Depois a planície, o cheiro a melão maduro, a figos e a amêndoas, as passagens pelos túneis a que antecedia o silvo estridente da coisa, logo seguido do acender  das luzes, em que o comboio se enchia de fuligem e fumo.

Nessa altura, as pessoas viajavam com as coisas mais incríveis. Lembro-me de uma senhora que levava duas galinhas dentro de uma cesta, a certa altura uma das bichas soltou-se, e era vê-la a correr pelo corredor, voando e cacarejando.

Chegados a Tunes, tínhamos que mudar de comboio, este mais moderno que nos levava até Faro. Contudo era viagem para seis ou sete horas.

Depois era desfrutar o Sol e as belas praias de quentes águas.

Comboio a vapor a entrar num tunel
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O Alquimista

Eu não via a aparência rude do senhor Amílcar. Para mim ele era um Alquimista… um Mago… daqueles com barrete pontiagudo e capa de veludo.

Transformar as frutas e as bagas em líquidos coloridos com sabores fantásticos… encantava-me.

Eu não desgrudava do senhor Amílcar e apercebi-me que à sua sabedoria não faltavam mistérios e segredos. Antes de se ir embora fazia para o Avô, que tinha bronquite crónica, um creme para pôr no peito à base de cera de abelha, eucalipto e cânfora, e para a Avó, fazia um creme de pétalas secas de rosa.

Eis aqui a receita de um dos licores que eu mais gostava:
 
 
 
Licor de Tangerina

6 tangerinas inteiras
1 litro de uma boa aguardente de vinho (eu só tinha direito a 1 litro de agua mineral)
1/2 kilo de açucar mascavado
4 cravos da India
raspa de nós moscada
um pau de canela

Picam-se as tangerinas com um alfinete  a toda a volta e põem-se em infusão num frasco de boca larga com 1 litro de boa aguardente de vinho.

Junta-se um pouco de nós moscada, um pau de canela e o 1/2 kilo de açucar mascavado e 4 cravos da India.

Deixa-se em infusão durante 20 dias e ao fim deste tempo filtra-se.
 
 
 
Fácil, não é?

Bom proveito.

As Consequências

A muito custo, porque os limos o faziam escorregar, o senhor guarda lá conseguiu sair do chafariz. Puxou da pistola e disparou para o ar dois tiros.
A esquadra era ali bem perto, colegas vieram rapidamente em seu auxilio e deram voz de prisão ao meu pai.

Estávamos em 1938 e os actos praticados eram considerados muito graves. Rasgar uma farda, e pôr um senhor guarda de molho, era caso para um anito de prisão efectiva.

Os amigos foram-se chegando e explicavam que o Zé era um bom rapaz que não fazia mal a ninguém, que aquilo foi um copito a mais.
Entretanto avisaram o meu avô que só se deslocou à esquadra no dia seguinte para falar com o chefe, de quem era conhecido.

O guarda nunca desistiu da queixa, mas durante sete anos, que foi o tempo da extinção do processo, comeu todos os dias o melhor peixinho fresco da sua vida.

Durante muito tempo os amigos quando o viam gritavam-lhe:

Óh Zé Ganço… vai dar banho ao policia.

A carta anónima

A carta dizia assim:

Senhor José se quer ter filha por mais uns anos, trate dela.
O marido tem tuberculose e nunca lhe disse nada.

Assinado
Uma amiga.

 

Diz quem viu, que o meu avô correu desesperado até à construtora para falar com o Jorge, que lhe disse que sim, que por tanto a amar e não querer perde-la não teve coragem de lhe dizer a verdade.

Não havia tempo a perder. Foi a casa da filha, contou-lhe a verdade.

Pediu-lhe que fizesse as malas, era para o bem dela e da criança.

E o Jorge pai?
– Não gasto um tostão com esse bandido.

A partir daí ela nunca mais viu o Jorge.

Susana & Jorge

Aos vinte anos Susana conheceu Jorge. Trabalhava numa firma de construção. Era traçador.

Ele ganhava bem para a época, e era da idade dela, por isso o meu Avô embora o achasse muito enfezado e sempre com uma tosse embirrante, não teve como dizer que não.

Namoraram cinco anos.

Decorriam tempos difíceis, época da segunda guerra mundial.

Foi quando compraram a moradia de Algés e lá se instalaram.

E foi na antiga igreja de Algés que o meu Avô levou ao altar a sua amada filha Susana.

 

Susana & Avô

Susana

Tios & Tias

 

Foi na casa da rua das Hortas em Pedrouços, que o meu Avô cimentou a sua vida.

Foi lá que comprou o primeiro barco, e foi lá que lhe nasceram os filhos… três rapazes e três raparigas.

Susana, a rapariga mais velha foi para ele uma mais valia.

Era o seu aí Jesus.

Quando chegava a casa vindo do mar, era a ela que entregava o dinheiro. Era a administradora.

Para além de obediente e boa dona de casa, Susana era uma excelente modista. Era ela quem fazia os fatos e vestidos de toda a família, e também de minha mãe que foi a sua melhor amiga.

A minha Avó já dava sinais de não estar a aguentar a pressão. A depressão começava a instalar-se.

Permanente…Que maldade!!!

Por volta dos anos 50, nas revistas da época tipo “Século Ilustrado”, as crianças eram mostradas em fotografias de estúdio, em poses ensaiadas; irrepreensivelmente vestidas e penteadas.

Crianças ranhosas e desgrenhadas “Jamai”.

Crianças pobres só eram mostradas em conjunto, por exemplo:

A Exmª.  senhora do presidente da republica, General Craveiro Lopes, deslocou-se à abertura da Colónia Balnear Infantil o Século.

Tinha pouco mais de dois anos, quando as tias me levaram à cabeleireira, para me fazer uma permanente.

Disseram que me portei muito mal, e que chorei muito.

O Avô quando viu zangou-se, e proibiu que o voltassem a fazer.

Aqui está o resultado.

O homem que matou o “Vendaval”

As rajadas de vento uivavam por entre os mastros dos barcos. Os relâmpagos e a chuva fustigavam tudo à sua volta, que o tempo era de vendaval.

À cinco dias que os barcos não saíam para a pesca. As lotas não tinham peixe e os homens desesperavam.

Apenas quatro homens compareceram ao chamado do meu avô.
 
– Qué do Chalica?
– Não veio, diz que não vai para o mar com este tempo, tem filhos para criar.
– Vai buscar o Américo, vamos sair mesmo assim. De madrugada isto levanta.

A viagem foi terrivel, tocada a chuva e vento, e onde a fúria das vagas a cada investida, pareciam quebrar a quilha da pequena embarcação.

Chegados a Sesimbra, não havia condições para a pesca, por isso fundearam na praia.

Ás três da manhã a tempestade amainou.
 
– Acordem!!! cambada de calões; – Toca a trabalhar. Vamos pescar para o largo.

Estavam lá na hora certa, na hora em que um descontraído cardume de carapaus,  resolveu explorar as redes do “Marcelina da Costa”.

Foram os únicos na lota,  e o peixe valeu cinco vezes mais.

Viva o Mestre Zé, o homem que matou o vendaval.