A prenda

Passaram dois dias sobre o meu terceiro aniversário, quando o avô me foi acordar.

Salta da cama pescadinha, vamos buscar a tua prenda… está no quarto azul. Ensonada, corri para o quarto azul.

Em cima de dois bancos, mesmo perto da minha cara, estava uma caixa comprida, atada com um enorme laçarote de cetim. – Vamos abre o teu presente; disseram as tias. Eu puxei uma ponta do laço, e elas ajudaram-me a abrir a caixa.

A Zázá surgiu… estava a dormir, mas quando lhe peguei abriu os seus olhos azuis e disse: – Papá Mamã.
 
– Avô ela fala. Fala e anda.
– Que linda .

O desgosto da pescadinha

Os meus lindos vestidos tinham desaparecido dos seus cabides. As meias de renda branca e os sapatos novos vermelhos, não estavam mais dentro da caixa e eu senti desmoronar-se todo o meu universo.

Quando a avó chegou do cabeleireiro, eu não lhe disse nada do que me ia na alma, mas sentei-me nos degraus da porta principal à espera que o avô chegasse.

Olha a pescadinha … estava à espera do avô?
 
– Corri para ele de braços estendidos e chorei o meu desgosto em altos berros no seu colo.

Primeiro apareceu a avó muito atarantada, antevendo uma queda, um braço partido, a ferroada de uma abelha e gritava: – Ai… Aiiii… meu Jesus, Virgem Maria me acuda, o que aconteceu? -Valha-me Deus.

As tias vieram a seguir, tentando compor a situação, mas eu não lhes dei chance, agarrada ao pescoço do meu avô, enchendo-o de ranho e baba gritei; – Foram as cabras… roubaram os meus vestidos todos. E a soluçar; – já nem tenho os sapatinhos vermelhos elas também os levaram.

Nessa tarde fui a Lisboa com o avô comprar roupa nova, e fui eu que a escolhi.