A Mulher e a Sardinha quer-se pequenina.

O meu avô avaliava as mulheres como se de peixe se tratasse.

Eu era a Pescadinha; uma mulher feia e metediça era uma ” Uge” (raia gigante com ferrão na ponta do rabo); uma mulher muito bem feita, era “Pescada do Alto”; Uma mulher com boca grande era “uma boca de Charroco” e com olhos grandes era uma “Boga”. Havia ainda “a Cavalona” que era uma mulher atiradiça.

Mas a personificação da mulher perfeita era a sardinha, que se queria pequenina e saltitante.

Maria Isabel era uma rapariguinha loira, com olhos cor do mar em dia de sol. Baixinha e muito remexida, era a filha mais nova do Senhor Costa.
Foi amor à primeira vista, ela parecia uma sardinhita prateada.

– Queres casar comigo Maria?

Casou com ela, e deixou-a grávida, a viver na casa da mãe.

Chegado a Lisboa, arrendou uma casa na rua das Hortas, no número dezoito, em Pedrouços, perto da doca com vista para a Torre de Belém.

Foi nessa casa Que nasceu Susana, a primeira filha do casal. A tia “Xana”.

O “Salto”

Foi daqui do sítio de Alvôr, no Algarve, que o meu avô partiu para Lisboa.

Em Alvôr deixou a mãe e a pobreza.

Não se passava fome, por que quem vive com o mar a beijar-lhe os pés tem sempre algo para comer. Mas na altura Alvôr era uma terra sem futuro. Havia o mar e a pobreza, muita pobreza.

Tinha treze anos, quando veio para Lisboa num barco de pesca. Só voltou aos dezoito anos para rever a mãe, que encontrou muito debilitada. Com o dinheiro amealhado comprou-lhe a casa onde vivia e deixou dinheiro na venda do Senhor Costa para que nada lhe faltasse.

O Cheiro do dinheiro.


Era da venda do pescado que o dinheiro entrava naquela casa. Vinha da lota em sacos de plástico transparente, todo amarfanhado e a cheirar a peixe. era preciso alisá-lo, separá-lo por valores e arrumá-lo no cofre.

Um dia o tio Victor, viu os sacos de dinheiro em cima da mesa da marquise, e não resistiu; tirou algumas notas que guardou nos bolsos das calças e do casaco. Depois foi-se embora.
Acabado o almoço, o avô deu por falta das notas, e perguntou se alguém ali tinha mexido.

Eram sete da tarde quando o Victor voltou.

Vinha a assobiar, quando o avô lhe deu um murro que o projectou para debaixo da mesa.

– Então tenho ladrões na minha casa?
– Onde é que está o dinheiro?
– Roubas-me e ainda entras aqui a assobiar!!!

Depois desapertou o cinto e o tio Victor pagou por todas.

Foge Maria !!! Foge !!!

Estávamos na sala de entrada. Ali ouvíamos telefonia, conversávamos e faziam-se pequenas refeições.

De repente o meu avô pediu à minha avó que lhe fosse buscar os cigarros ao bolso do casaco;
 
– Onde deixaste o casaco?
– Está no nosso quarto no cabide.

Ela hesitou.
 
– Vai lá Maria… vai.

O corredor da sala ao quarto media oito metros e ela conforme avançava ia acendendo as luzes.
Quando acendeu a luz do quarto, o relógio começou a bater as badaladas da meia noite.
 
– Foge Maria!!! Foge!!!
– Olha o padre!!! ele vem atrás de ti!!!

E ela fugiu… Espavorida, tinha um medo terrível daquele quarto.

O caixão

Todos os brinquedos estavam no meu quarto, menos a Zázá que continuava a viver no quarto azul. Sempre que eu queria brincar com ela tinha que pedir a alguém que me abrisse a porta para eu poder brincar.

Num desses dias, abriram-me a porta e deixaram-me ficar lá sozinha.

A minha atenção foi atraída para uma enorme caixa de bombons com uma pintura muito bonita na tampa. Julguei ter descoberto o porquê daquela porta estar sempre fechada, mas não.

A caixa de bombons estava cheia de fotografias e eu sentada no chão ali estive entretida a vê-las uma a uma.

Numa das fotografias estava deitada dentro de um caixão, uma senhora alta e magrinha,vestida de preto, mas com um lenço branco que lhe apertava os maxilares.

A avó estava na cozinha a fazer o almoço, quando eu apareci com ar comprometido. Escondida atrás das costas estava a fotografia.
– O que foi menina?
– Já não queres brincar mais?
– O que é isto avó?
– Aiii… Aiii…. Jesus Senhor, que criança atrevida! – Quem lhe manda mexer onde não é chamada.

A avó limpou as mãos ao avental, sentou-se e pegando na fotografia disse:
– Meu Deus, tantos anos já passaram.
– Esta senhora era a tua bisavó, mãe do teu avô.

A prenda

Passaram dois dias sobre o meu terceiro aniversário, quando o avô me foi acordar.

Salta da cama pescadinha, vamos buscar a tua prenda… está no quarto azul. Ensonada, corri para o quarto azul.

Em cima de dois bancos, mesmo perto da minha cara, estava uma caixa comprida, atada com um enorme laçarote de cetim. – Vamos abre o teu presente; disseram as tias. Eu puxei uma ponta do laço, e elas ajudaram-me a abrir a caixa.

A Zázá surgiu… estava a dormir, mas quando lhe peguei abriu os seus olhos azuis e disse: – Papá Mamã.
 
– Avô ela fala. Fala e anda.
– Que linda .

A Cruz – Azul

O “Pico” continuava a sangrar, por isso chamaram um enfermeiro da Cruz Azul, que lhe suturou a cabeça com três pontos.

Pelas duas horas da tarde, o avô chegou da faina. Vinha com cara de vendaval.

Na mesa da marquise, poisou o cabaz de vime, com o peixe acabado de pescar e dirigiu-se com rapidez para o quarto da tia Adelina. Aterrorizada ela escondeu-se atrás do “Pico”, que estava branco como a cal. Com a mão esquerda empurrou o “Pico” que caiu na cama, e com a direita deu na tia Adelina uma chapada monumental.

Ao “Pico” disse-lhe; – Grande sorte, se tivesse sido eu a dar-te essa pancada, eras um homem morto.

O guarda – nocturno

Decerto nessa noite o avô foi preocupado para a faina da pesca. Em Casa deixou o tio Victor encarregue de manter os olhos bem abertos. Na rua a vigiar ficou um homem de sua confiança para ajudar no que fosse preciso.

Fora alertado pelo guarda – nocturno, que pela calada da noite alguém andava a rondar a nossa casa tendo sido visto a empurrar a janela que distava do chão pouco mais de um metro.

A janela era a do quarto verde e naquele quarto não dormia ninguém.